20 de jan. de 2011

O dia em que descobri quem sou.


Há poucos meses um amigo querido presenteou meu marido em seu aniversário com um vinil do Coltrane e Duke Ellington. Ficamos olhando para aquele presente, que no início me pareceu um pouco fora de contexto,  e nos perguntamos: “- Tá, e agora? Ouvimos como?” Foi batendo uma curiosidade louca e não havia outra maneira a não ser comprar uma vitrola.

No dia em que chegou a tal vitrola fomos escutar o tal vinil e eis que um sentimento estranho foi invadindo meu estômago, minha alma. Não, eu não estava com fome. Eu fiquei é pasma com a emoção que senti com a sonoridade de um vinil. Gente, o som é vivo. Não tem absolutamente nada a ver com o modernésimo mp3. E me deu uma raiva de não poder carregar a vitrola no carro. E eu que achava essa papo de colecionador de vinil uma bichisse sem tamanho, um atraso de vida de gente louca que não acompanha a evolução dos tempos. Quanta ignorância.

Lembrei que meu pai tinha alguns discos guardados e fui logo dar uma assaltada naquele armário quase nunca visitado. E o cheiro de mofo? Isso é a parte. Foi me dando uns flashbacks da infância, eu só me recordava dos meus discos com trilhas de novelas, dos Trapalhões, Balão Mágico, da Angélica – aquele do Vou de Táxi -, enfim, aquilo que eu escutava nos anos 80, quando eu era uma criança.

De repente começaram a aparecer os discos do meu pai, e aí eu petrifiquei. Vários discos da Blue Note, todos de jazz, Chet Baker, Grapelli, Stevie Wonder, Eric Clapton, Beatles, Milton Nascimento, Gal, Tom Jobim, Chico Buarque e por aí vai (o mais engraçado foi o selinho do Carrefour nas capas). Sério, fiquei arrepiada porque finalmente eu entendi quem eu sou hoje e porquê eu sou o que sou. Sim, eu sabia das minhas influências musicais de casa, mas fazia muito, mas muito tempo mesmo que não “tocava” nessas referências. Elas estavam ali materializadas em bolachas pretas. Foi intenso.

Como se não bastassem aqueles discos, minha mãe apareceu com uma caixa cheia de discos do meu avô Ananias, um pernambucano pé-de-valsa que engomava suas calças e camisas brancas para cair nos bailes todo final de semana. Sem minha avó, é claro. Tenho muito essa lembrança na cabeça.

Os discos do cabo Ananias (ele era da polícia, e dele eu herdei um Rayban originaaaaal armação dourada e lentes verdes incrível!) eram todos de música brasileira e da década de 60 e 70. Ou seja, os primeiros de todo esse povo que eu amo hoje em dia, Chico, Tom, Elis, Milton, Bethânia, MPB4, Sivuca, Jackson do Pandeiro, João Nogueira, Paulinho da Viola, e por aí vai.

Essa vitrola mudou mesmo os meus dias. Toda vez que chego em casa, limpo pelo menos uns dois disco e escuto aquilo como se eu estivesse presente naquele momento da gravação. Tem um show ao vivo do Chet Baker, com uma gravação de My Funny Valentine, que eu nunca tinha ouvido, e essa música me faz sentir coisas.  É de chorar.

Aí vai a dica. As vezes voltar no tempo é enriquecedor. Faz bem pra alma e economiza uns anos de terapia pra quem precisa se encontrar.

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